Museu do Amanhã convida a pensar sobre impacto do homem na Terra

Cerimônia de abertura do Museu do Amanhã, no Píer Mauá, no Rio, ocorre nesta quinta-feira (17/12)


Nas docas do Rio de Janeiro, uma construção chama a atenção por sua arquitetura. O prédio de concreto e aço, concebido pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, parece sair da Baía de Guanabara e flutuar em uma piscina. Seu teto, formado de placas solares, se move conforme a direção do sol para melhor gerar energia. Trata-se do Museu do Amanhã, novo marco na paisagem carioca, com inauguração marcada para o dia 19 de dezembro. O Museu do Amanhã lida com um tema fascinante. A humanidade modificou a Terra de forma tão intensa que alguns cientistas acham que alteramos a época geológica do planeta. Essa mudança ganhou um nome: antropoceno, o tempo em que humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra.

A primeira sensação ao entrar no museu é de imersão. Fechado em uma redoma preta, você assiste a um vídeo em 360 graus que mostra o surgimento da Terra e o surgimento da vida, com imagens que parecem sair das paredes e do teto. A sensação é de encantamento com o mundo. O céu, a água, os animais, sejam pássaros voando ou baleias nadando, desfilam ao redor do visitante. O vídeo foi produzido pela O2, do cineasta e ativista ambiental Fernando Meirelles, com o objetivo de representar o Cosmo.

A exposição segue mostrando de onde viemos e para onde vamos. Entre uma obra e outra, o visitante é apresentado a jogos eletrônicos e experiências de interatividade para não só compreender, como alterar o amanhã. “Criamos um percurso narrativo para o visitante entender o mundo ao seu redor, para mostrar que o amanhã não é uma data no calendário, lá longe. É uma construção, que está sendo feita hoje”, diz Hugo Barreto, diretor de conteúdo do Museu do Amanhã.

O clímax desse percurso são seis totens de 10 metros de altura, inclinados em direção ao centro, passando uma ideia de instabilidade. Cada totem mostra imagens e números impressionantes de como o homem transformou o planeta – e nem sempre sua interferência foi positiva. Aparecem imagens de carros e arranha-céus – e, junto com elas, números aterradores da quantidade de florestas destruídas, lixo jogado fora, rios poluídos. Ao som de música dissonante, a experiência gera desconforto e uma tensão que será aliviada na última área do museu, inspirada nos aborígenes australianos, a passar a ideia de harmonia e união entre os povos.
    
Uma narrativa como essa é inédita no país. Os responsáveis pela concepção e realização do museu – a prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Roberto Marinho, instituição ligada ao Grupo Globo, tendo o Banco Santander como patrocinador máster – se inspiraram nos principais museus de história natural do mundo. Mas com uma diferença importante. O conceito aqui é de um museu do futuro, não do passado. Por isso, há uma central de inteligência que fica conectada com as principais redes de informação sobre ecologia. Quando o visitante vê os dados da quantidade de lixo produzida no mundo, por exemplo, ele está vendo um número atualizado em tempo real. Um globo terrestre que flutua pendurado no teto do museu representa bem isso: é como se ele estivesse vivo, mostrando em tempo real a movimentação das ondas marítimas, chuvas e ventos. A interatividade e a conectividade tornam o Museu do Amanhã, na verdade, em um museu do presente.

O prédio é obra do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, nome importante no que os especialistas chamam de “arquitetura do espetáculo” – aquela que, além de se integrar à paisagem de uma cidade, a transforma radicalmente, criando um marco urbano. O desenho do museu homenageia a arquitetura modernista, com curvas que lembram o traço de Oscar Niemeyer. Como Niemeyer, Calatrava é celebrado pelo trabalho ousado e obras impactantes, e acusado de criar prédios pouco funcionais. No caso do Museu do Amanhã, se por um lado o prédio parece destoar de seu entorno, o Píer Mauá, por outro ele se inspira na própria biodiversidade brasileira. Os contornos foram inspirados por uma flor, uma espécie de bromélia que só existe na Mata Atlântica carioca. 

O antropoceno é um conceito novo, proposto pela primeira vez pelo químico holandês Paul Crutzen. Especialista em química da atmosfera – ele ganhou o Nobel em 1995 por seus estudos sobre a camada de ozônio –, Crutzen estava familiarizado com a forma como a atividade humana está mudando a composição da atmosfera. Ao lançar fumaça de automóveis, chaminés e queimadas, a humanidade mudou a composição do carbono na atmosfera, que era de 300 partes por milhão (ppm) nos últimos 500 mil anos. Hoje, essa concentração está em 400 ppm, provocando um aumento de temperatura de 1 grau célsius e com potenciais catastróficos. O homem já alterou 38% da superfície do planeta com pastagens e produção de alimento. Em alguns países, como o Uruguai, 80% da área é destinada para a agricultura, sobrando quase nenhum espaço para a vida selvagem.

O termo antropoceno começou a ser usado por cientistas de várias áreas. Já há, hoje, três revistas científicas dedicadas exclusivamente a artigos sobre a nova época humana. Quem decide se a época muda oficialmente, no entanto, são os geólogos. Eles criaram um grupo de trabalho liderado pelo pesquisador britânico Jan Zalasiewicz, da Universidade de Leicester, que apresentará no ano que vem um relatório recomendando ou não a nova classificação.

Zalasiewicz explicou a ÉPOCA como funciona esse trabalho. Apenas mudanças visíveis nas rochas podem justificar mudanças de era geológica. Sabemos que a era do gelo acabou (o pleistoceno) porque a retração do gelo pode ser identificada na Groenlândia. Sabemos que o período cretáceo acabou, há 66 milhões de anos, porque entre uma rocha e outra há elementos químicos que só podem ser explicados pela queda do meteoro que exterminou os dinossauros. Se os seres humanos se tornaram o principal motor do planeta, isso tem de ficar marcado, de alguma forma, no estrato geo¬lógico. Zalasiewicz parece convencido de que é esse o caso. “Quanto mais você olha a evidência, mais percebe que mudanças substanciais estão acontecendo nos registros geológicos no momento”, diz. Segundo o cientista Carlos Nobre, único pesquisador brasileiro que participa do grupo de trabalho do antropoceno, a vida na época humana será mais difícil e complexa na nova era. Para se adaptar ao novo cenário, precisaremos de conhecimento que lastreie escolhas inteligentes. A tarefa de conscientizar o público para o desafio é fundamental – e, nisso, o Museu do Amanhã tem um papel importante a cumprir.


Fonte: matéria retirada do site da Época, http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/12/museu-do-amanha-convida-pensar-sobre-impacto-do-homem-na-terra.html