Lixo, que representa 16% dos focos do "Aedes", enche ruas do Rio

Para infectologista da Fiocruz, é necessária uma campanha "mosquito zero" 


Rio das Pedras, comunidade da Zona Oeste com 150 mil moradores, conta com 74 “laranjões”, contêineres com capacidade para 850 quilos de lixo, espalhados pelas principais vias. Uma mulher, ao sair para o trabalho na manhã de ontem, jogou um saco de lixo no chão, ao pé de um desses contêineres na Avenida Engenheiro Souza Filho, e seguiu indiferente. Um pouco mais de força no braço seria o suficiente para lançá-lo na boca da lixeira, praticamente vazia. Como lixo chama lixo, levou pouco tempo para surgir uma pequena montanha de detritos no local, orbitada por uma nuvem de insetos.

Enquanto cenas assim se repetirem no Brasil, o Aedes aegypti, mosquito que amedronta o país, não será derrotado. Desde 1986, quando houve uma epidemia de dengue reconhecida pelo governo, o inseto resiste. O infectologista Rivaldo Venâncio da Cunha, do escritório da Fiocruz no Mato Grosso do Sul, afirma que o surto de microcefalia, epidemia associada ao vírus zika, transmitido pelo Aedes, não deve ser encarado somente como caso de saúde pública, mas como questão de comportamento. Para barrar a epidemia, ele alerta, será necessária uma mudança na consciência da população:

— Precisamos de um “mosquito zero”, nos moldes da guerra à fome lançada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, em 1993, ou da lei que impôs uso de cinto de segurança nos carros.


CRIADOUROS NATURAIS


Antes de subir no ônibus, a mulher de Rio das Pedras reconheceu a gravidade da microcefalia, mas partiu sem responder o que fazia para erradicar o inseto. O ato de jogar lixo no chão seria repetido várias vezes naquela manhã na comunidade. No Rio, cidade que já notificou 16.483 casos de dengue desde o início do ano, o lixo representa 16% dos criadouros naturais do mosquito, informou a Secretaria Municipal de Saúde. Mas o ranking é liderado pelos depósitos fixos de água, como tanques em obras, borracharias e hortas, calhas, lajes e toldos em desnível, ralos, sanitários em desuso, piscinas não tratadas, fontes ornamentais, cacos de vidro em muros e até vasos de cemitério, com 32,9% dos focos.

Para advertir sobre o tamanho do problema, o epidemiologista Guilherme Franco Netto, assessor técnico da Vice-presidência de Ambiente e Atenção à Saúde da Fiocruz, faz outra conta. Ele garante que 80% dos depósitos com focos do mosquito são domiciliares ou ao redor deles. Há três décadas, as ações de saúde parecem enxugar o gelo. Em 2011, a prefeitura teve de baixar a Lei 34.371, para regularizar a entrada compulsória de agentes da Vigilância Ambiental em lares inacessíveis. Somente este ano, houve 48 entradas forçadas, nas quais os fiscais foram obrigados a levar chaveiro, por ausência ou resistência dos donos.

Tanto trabalho, muitas vezes, para tampar um ralo deixado aberto ou esvaziar um tanque de lavar roupa nos fundos da casa. A Comlurb já recebeu denúncia até sobre a presença de larvas em água benta.

Com a tolerância da sociedade, o Aedes aegypti insiste em se tornar doméstico. Conhecido como mosquito da dengue, e mais recentemente associado aos vírus zika e chicungunha, o inseto geralmente prefere água limpa para colocar seus ovos. Qualquer objeto ou local serve de criadouro, mesmo a casca de uma fruta ou um copo plástico abandonado no gramado. Uma pequena quantidade de água parada é suficiente para os ovos se desenvolverem.

— Não é difícil achar um copo descartado no chão de cursos de Medicina, onde deveriam estar as pessoas mais conscientes — lamenta o infectologista Rivaldo da Cunha.

Sem esconder a preocupação com a velocidade da epidemia de microcefalia, Cunha lembra que a doença é apenas a ponta do iceberg, porque há outros males relacionados ao vírus zika, como a microcalcificação do cérebro (enrijecimento das estruturas internas), que também afeta o desenvolvimento cognitivo. A considerar os casos contabilizados até agora, no ritmo do avanço, a escalada da doença poderá atingir alarmantes 10 mil casos em 2017 no país, prevê:

— O espectro é gigantesco. E não há como impedir esse avanço, a não ser exterminar o mosquito. A solução, no caso, está fora do sistema de saúde. Exigirá um esforço governamental e não governamental. Faz lembrar a situação vivida pelo país nos anos 1950, quando um surto de poliomielite convenceu a população a lavar as mãos antes das refeições e não defecar a céu aberto.

Nas ruas, a batalha do momento está nas mãos de garis e agentes sanitários. Estes últimos somam 3.500 para uma população de mais de seis milhões de habitantes, número que o coordenador da Vigilância Ambiental do município, Marcus Vinícius Ferreira, considera satisfatório. Cada um cobre uma área de 800 a 1.200 domicílios, fazendo em cada um deles cinco visitas anuais. O trabalho consiste basicamente na eliminação física do criadouro identificado, na vedação de depósitos em potencial e, em último caso, na aplicação de larvicidas.

Pelas contas da prefeitura, eles já realizaram em 2015, até o momento, 8,9 milhões de visitas a imóveis em toda a cidade em busca de focos do mosquito da dengue, eliminando outros 931 mil e tratando 2,9 milhões de depósitos. Mas a circulação de veículos nebulizadores, os fumacês, passou a ser esporádica pelo efeito do produto, o malation, no ambiente. Ferreira garantiu que, além de matar o mosquito, o inseticida também eliminava os seus predadores e até algumas espécies de pássaros.

Na manhã de ontem, a ação dos garis da Comlurb em Rio das Pedras parecia uma aventura quixotesca. Enquanto varriam, recolhiam os sacos espalhados pelo chão e descarregavam os contêineres nos caminhões — que passam duas vezes ao dia —, os moradores continuavam a jogar o lixo que traziam de casa no lugar mais prático. Embora os “laranjões” tenham um pedal que abre a tampa sem que o usuário precise tocá-la, a maioria destes lixões estava aberto com uma ripa de madeira, para facilitar a vida dos moradores e dos insetos.


Fonte: matéria retirada do site do O Globo, http://oglobo.globo.com/sociedade/lixo-que-representa-16-dos-focos-do-aedes-enche-ruas-do-rio-18215651